O cesto com pedras

Erzählung zum Thema Resignation

von  Lisboeta

O cesto não era grande. De entre a terra grossa apareciam as pedras de todos os tamanhos e de todas as formas. Tentou levantá-lo. Que peso! Despejou uma parte do conteúdo. No chão da pedreira ficou um monte de pedras insignificantes. Uma aranha apareceu entre umas pedrinhas pequenas. Sorriu-lhe e pegou nela, pousando-a à beira do caminho.

- Vai, vai, pequena. Vive, pelo menos tu. Não pares aqui nesta vida ingrata que te esmaga. - disse-lhe. A aranha obedeceu-lhe.

Lá levantou o cesto meio cheio e seguiu até ao camião. Quantas vezes ia e vinha! Por sorte o capataz não lhe levava a mal por carregar tão pouco de cada vez. Se lho exigisse, de certo morreria. De onde viria ela a desencantar forças que lhe levantassem o cesto cheio até à borda, como os outros? Apressava o passo, correndo todo o dia muito mais do que todos.

Enquanto repetia vezes incontáveis o mesmo trajecto, pensava na doçura do lar que abandonara. Pensava na cidade despida de árvores, onde os prédios se acumulavam, olhando de janela para janela. Pensava no palácio com as florinhas em vasos à entrada: um palacete de cores discretas e poucos ornamentos nas portas, destacando-se ao fim da rua. Os pais não eram novos e bem sabiam que o tempo depressa chegaria ao seu termo. Como estavam felizes vendo-a ao lado do mancebo bem sucedido na sua terra, herdeiro da maior pedreira no país vizinho! Um homem que lhe daria a protecção que eles não lhe poderiam garantir por muito mais tempo. Só lhes custava o afastamento da longa distância.

Ainda mais um cesto. O Sol tinha desaparecido. Despejado o cesto, foi mais adiante para a cabana, onde as outras raparigas se tinham aninhado nas enxergas. Nem comeu. Atirou-se para baixo e tapou-se. Logo depois, assim lhe parecera, já se levantavam todas e seguiam juntas para a dura azáfama.

De si para si pensava: “Cada dia, sempre a mesma coisa: monte acima, monte abaixo, cestos cheios de pedras, pedras de todos os tamanhos e estruturas. Uma tigela de sopa grossa, um pão, uma enxerga sobre o solo.”

E pensava nas outras raparigas de outras pedreiras. Como único pagamento recebiam caldos líquidos nos sete dias de trabalho semanal. Na sua pedreira, de vez em quando, recebiam umas notas pequenas que ela  ia juntando. Talvez ele a autorizasse um dia a visitar a cidade longínqua. Certamente já não existiriam os bondosos velhos, cansados de tanta espera.

Entretanto, tinha sopa e pão, tinha sorte.

09.09.2009

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